Havia um tempo em que a Serie A era uma representação icônica da Itália para o mundo. Em 1996, quando a Bota ainda era o destino dos melhores jogadores (Michel Platini havia passado por ali, Diego Maradona havia passado por ali, Sócrates, Zico, e o Bola de Ouro George Weah havia acabado de chegar ao Milan), a liga italiana registrava 16% de jogadores estrangeiros em campo – o menor índice entre as cinco maiores ligas europeias. O dinheiro estava em Milão e em Turim, não em Manchester ou Londres.
Larga, velha e gringa
Os gringos representavam 64% dos jogadores da liga em 2025. O campeonato deixou de ser o mais nativo da elite europeia e foi para a borda oposta: mais largo na importação, mais velho no perfil e menos italiano na essência. No recorte de elencos, isso o coloca acima de França, Alemanha e da média do Tier 1 (57%). A inversão demorou quase 30 anos para se completar, mas depois de 2017 acelerou: em oito temporadas, a proporção de estrangeiros subiu 16 pontos percentuais. Na anotação mais exigente², em minutos em campo, os atletas não elegíveis para a seleção já respondem por 68% do total da época.
O dado importante aqui não é moral. Não há nada de errado em importar jogadores. A Premier League é o campeonato mais globalizado do planeta, se vende como um produto de primeiro nível e a seleção inglesa compete nas cabeças. O problema italiano é mais específico: a Serie A ficou mais aberta ao estrangeiro ao mesmo tempo em que se organizou para absorver jogadores mais prontos, mais velhos e, em geral, mais úteis no curto prazo do que um sub-21 local ainda em formação. Não é uma anomalia italiana, pois nenhuma grande liga europeia dá muito espaço ao sub-21. O que distingue o Belpaese é a combinação de fatores: importa mais, importa tarde e, quando importa, deixa o jovem na fila.
A abertura ao estrangeiro tem camadas, sendo a mais funda quase centenária. O instituto do oriundo já vestia a Azzurra de argentinos nos anos 1930. Esse canal nunca fechou: o que mudou foi o entorno. A Lei Bosman, em 1995, derrubou as fronteiras para jogadores europeus dentro da União Europeia, e a queda do poder financeiro da liga, hoje apenas a quarta da Europa em receita, foi tornando mais barato trazer um croata já pronto no Dinamo Zagreb do que bancar três temporadas de um italiano de 19 anos que talvez nunca rendesse. Nenhum desses movimentos foi pensado em função dos outros, e mesmo assim os três davam no mesmo lugar.
A mudança de perfil aparece também na geografia da importação. O retrato mais recente (2020-25) mostra uma Serie A alimentada por França, Brasil, Espanha, Argentina, Sérvia, Holanda e Croácia, numa composição que diz menos sobre identidade do que sobre disponibilidade de mercado. O antigo eixo sul-americano, que ajudou a definir a identidade do campeonato por décadas, já não reina sozinho. O que emerge é uma competição mais europeizada na porta de entrada, mais balcânica e intraeuropeia na circulação de talentos.
A França, que nos anos 1990 raramente exportava jogadores para a Itália, tornou-se o maior fornecedor da Serie A na última meia-década: de uma média de 13 jogadores por temporada entre 2017 e 2019, o número de franceses na liga subiu para 30 no biênio passado. A Inglaterra surgiu de repente com uma migração expressiva, passando de 1 por temporada para 8.
O Brasil foi na direção contrária. A maior fonte histórica de estrangeiros da Serie A (média de 24 jogadores por temporada entre 2017 e 2019) caiu para 15 em 2024-26. Inglaterra e Espanha passaram a absorver a elite sul-americana. As libras foram beneficiadas pela conversão cambial, e os brasileiros de topo entenderam que havia destinos mais proveitosos que Roma, Bérgamo, Údine e Nápoles.
A segunda dimensão nesse perfil de importação diz respeito à idade. A mediana de recrutamento da liga oscilou entre 24 e 26 anos entre 2013 e 2022, sempre no teto do Tier 1³. Espanha e França navegam mais próximas de 23. A Itália não apenas importa muito como importa tarde. Compra jogador pronto, preferindo uma solução que chega com potencialmente mais repertório defensivo, melhor leitura tática e menor margem de erro — mais um fator que ilustra como a Serie A opera como mercado de manutenção, não de lapidação, ou até mesmo como cemitério de grandes atletas.
A variação de um ou dois anos parece pequena, mas entre os profissionais é a diferença entre um atleta que chegou para se desenvolver e um que pode ou precisa render imediatamente. Isso não é acidente nem preferência estética. É consequência de uma liga que, há duas décadas, escolheu consistentemente o imediato sobre o desenvolvimento — o padrão que a FIGC reportou como diagnóstico definitivo após a eliminação de 2026 e que o projeto Rinnovare Il Futuro (Renovar o Futuro, em tradução livre) propunha romper já em 2011. Essa escolha, multiplicada por n contratos por ano durante 20 anos, construiu uma cultura dentro dos departamentos de futebol dos clubes italianos: o estrangeiro de 26 anos que já jogou 200 partidas profissionais em Mônaco ou no Algarve é um ativo de risco calculado. O italiano de 19 que acabou de ganhar o Europeu sub-19 é uma aposta. E as finanças dos clubes italianos, como veremos, não comportam mais apostas.
Há um episódio nessa história que merece atenção separada — não porque seja o mais importante, mas porque é o mais revelador sobre como os italianos pensam o futebol.
Em abril de 2019, o governo aprovou o Decreto Crescita, convertido em lei dois meses depois e concebido para reverter a fuga de cérebros da economia nacional: qualquer profissional qualificado que voltasse a trabalhar na Itália depois de dois anos fora pagaria imposto sobre apenas metade do salário. Era uma política horizontal, pensada para atrair médicos, engenheiros, pesquisadores de volta ao Belpaese. O Artigo 5 estendeu o benefício — quase por acidente, sem grande debate público — a desportistas e acabou sendo informalmente chamado de Lei Beckham pela similaridade que o regime tinha com o par espanhol do início da década de 2000.
Os clubes de futebol perceberam o que estava disponível antes que a própria legislatura terminasse de discutir.
Em termos absolutos, durante os três anos em que o decreto vigorou, a Serie A teve em média 242 estrangeiros por temporada, abaixo dos 252 do período imediatamente anterior. O número não inflou, em parte porque a pandemia havia reduzido transferências em todo o futebol europeu. Mas o percentual de estrangeiros contou uma história diferente: em 2019, primeiro ano de vigência do decreto e um ano antes da COVID-19 paralisar o esporte, esse índice saltou de 43% para 52%, o maior da série histórica.
O governo revogou o benefício especificamente para o futebol em 2023, singularizado possivelmente como gancho político conectado com o desdém da classe dirigente. O decreto não criou o hábito, porém, instalou-o. E o hábito sobreviveu ao incentivo fiscal que o havia pavimentado. Quando os clubes deixaram de ter o desconto, já tinham reorganizado o modelo de observação para o exterior e não voltaram atrás: a média subiu para 334 estrangeiros⁴ por temporada desde então.
A França consolida quase 2,3 mil jogadores expatriados entre 2020 e 2025, o segundo maior volume global. A comparação pode ser inevitável, mas não convém tratá-la como receituário. O sistema por trás desse número tem raízes na reestruturação do futebol francês iniciada nos anos 1970, após a eliminação da seleção na primeira fase da Euro 1968 e a ausência nas Copas de 1970 e 1974. A Charte du football professionnel de 1973 tornou obrigatório que todo clube profissional mantivesse um centro de base com educação acadêmica formal até os 18 anos. O plano federal detecta talentos a partir dos 13 anos, centralizado em Clairefontaine, e é potencializado por uma vantagem demográfica ligada ao passado colonial: 44% dos 100 jogadores mais valiosos da França nasceram ou cresceram na região da Grande Paris, um universo multicultural com influências africanas, caribenhas e magrebinas.
A Itália não tem essa demografia, não tem a legislação de 1973 e não tem Clairefontaine. O modelo francês levou 50 anos para produzir o que produz hoje, vendendo e recomeçando. A Itália, historicamente, produziu menos, reteve mais e comprou melhor. O problema é que perdeu a capacidade de fazer isso em alto nível sem construir um sistema alternativo.
² Pubblicata la relazione sullo stato di salute del calcio italiano, FIGC, 2026
³ CIES Football Observation Monthly Report 78, 2022
⁴ Transfermarkt, consolidado em European Football Player Statistics (1996-2025)