Buffon disse que defesas ganham campeonatos na ressaca da derrota em Zenica, presente como chefe da delegação. Dois dias depois da eliminação, demitiu-se do cargo que ocupava há três anos.
Outros italianos de diferentes gerações repetem o mesmo mantra quase como quem reza um terço. Parece poesia, mas é uma descrição honesta do mundo: a Inter de Helenio Herrera; o Milan campeão europeu com Nereo Rocco e, depois, com Arrigo Sacchi; a Juventus destronando o Ajax e a Itália no topo do mundo, ambos de Marcello Lippi, cuja seleção de 2006 sofreu dois gols em sete jogos. Gianni Brera, jornalista que inventou o vocabulário com que se pensa o jogo na Itália, dizia que o futebol italiano precisava ser inteligente “porque éramos pobres”. A frase proferida em 1969 era exata: pobreza forçava economia, economia forçava ideia, ideia se transformava em tática. A Itália foi rica por décadas e nunca abandonou o reflexo. Defender é tradição contábil antes de ser estilo.
O problema é que o centro do jogo se deslocou. Não foi uma mudança instantânea, e não foi boa nem ruim — foi apenas uma alteração, daquelas que o futebol vive a cada 15 ou 20 anos desde que existe gente para escrever sobre ele. Pep Guardiola assumiu o Manchester City em 2016 levando consigo a metade barcelonista do dicionário catalão. Jürgen Klopp já estava em Liverpool com sua pressão, repetindo o que fez em Dortmund. A Espanha havia ganhado duas Eurocopas e uma Copa do Mundo jogando um futebol que Buffon talvez não definisse como futebol ainda que, pessoalmente, jogasse exatamente com os pés como o protótipo do goleiro espanhol que participa do jogo. A Premier League virou um laboratório de alta posse com pressão alta e reorientou o vocabulário tático de toda a Europa.
Vale uma pausa antes que a tentação tome conta: seria fácil tomar o modelo de Guardiola como verdade alcançada e diagnosticar a Itália como atrasada por isso. O dinheiro inglês organizou a gramática mais do que o talento inglês — é uma distinção importante, e que encontra o argumento de que jogar muito bem o que você sabe pode vencer quem joga o que dizem que todos deveriam jogar. Riqueza atrai homogeneidade porque atrai os mesmos jogadores, os mesmos treinadores e as mesmas narrativas. Os dados da temporada 2025-26 traduzem essa lógica: entre todas as ligas do Tier 1, a Premier League é a que tem a menor variação de xG entre seus clubes — a diferença entre o melhor e o pior time em produção ofensiva esperada cabe num intervalo mais estreito do que em qualquer outra grande liga europeia. Ainda que o dinheiro possa ser uma teoria válida (e falaremos sobre dinheiro mais adiante), a Itália se manteve estática enquanto o cenário ao redor se transformava.
A luz apagada da Serie A
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Valores per-match, por 90 minutos, da temporada em curso 2025-26. Dados coletados com as temporadas em andamento.
Fonte: FootyStats
Dribles por jogo · Serie A
2019
19
→
2026
12
-35% em 7 temporadas
O ball-friendly index e o direct play index capturam onde cada liga posicionou seu vocabulário tático. O primeiro mede o quanto a liga favorece a circulação de bola pela proximidade dos passes e pela duração das posses. O segundo mede a verticalidade pelo volume de arrancadas, corridas em profundidade e densidade de passes diretos. Nas duas dimensões, a Serie A está em último.
A liga que foi sinônimo de catenaccio não joga mais o estilo clássico, que pressupunha disciplina defensiva extrema e contra-ataques cirúrgicos. Mas também não migrou para o paradigma novo. Ocupou o vácuo entre os dois: nem o passe curto da Espanha, nem a verticalidade da Inglaterra, muito menos a pressão alta da Alemanha. O resultado é uma liga que, no levantamento agregado das dez ligas do CIES, marca 1,18 gols por jogo — o menor do Tier 1 e 2 — e produz 1,26 xG, no piso da amostra ao lado da Turquia. O gráfico de clubes acima conta a mesma história por outra lente, com dados da temporada em curso: entre as cinco grandes ligas, a Serie A tem o menor xG médio e o agrupamento mais puxado para baixo. E os atacantes italianos não figuravam entre os 50 com maior trabalho defensivo do mundo em 2024. Para comparação, a Premier League tinha três representantes nessa lista; Bundesliga e La Liga, dois cada.
Serie A flerta com a passividade tática
Tier 1Tier 2
Índices compostos de posse, proximidade de passes, arrancadas e corridas em profundidade.
Fonte: CIES Weekly Post 438 (2023) e 532 (2026)
O que os índices descrevem é um diagnóstico, não uma sentença estética. A Serie A está em último nas duas dimensões: circulação de bola e verticalidade. Mas o vocabulário tático não é um eixo cartesiano — é uma convenção, e o que os índices não medem importa tanto quanto o que medem.
Podemos contar oito formas distintas de entender o jogo na Itália contemporânea, todas vencedoras em algum nível. A liga que produziu esses treinadores é uma competição cuja ideia ficou desorganizada dentro de si mesma, ainda com algumas ideias. O catenaccio acabou de fato – Sacchi mesmo o enterrou, em 1989, com o Milan dos holandeses. O que veio depois foram filiais. Cada um tem uma tese, e cada um defende publicamente sua proposta. Em Coverciano, centro técnico da federação em Florença desde 1958, todos esses homens passaram, todos escreveram teses de formação, com bibliografia e bancada examinadora mesmo depois que a licença UEFA Pro virou requisito europeu padronizado.
PERFIS
Os oito arquétipos do treinador italiano
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Ao fim da temporada atual, Napoli e Antonio Conte se separaram. O presidente do clube, Aurelio De Laurentiis, procurou reeditar a parceria com Maurizio Sarri, técnico que se tornou reconhecido mundialmente pelo o que fez em Nápoles entre 2015 e 2018. A reação nas redes foi previsível: "sempre os mesmos". A acusação literal é imprecisa ainda que a sensação tem ancoragem estrutural. Os perfis especulados para os grandes clubes italianos formam um conjunto demograficamente coerente: em geral italianos, em geral na faixa dos 55 anos, em geral com histórico cruzado pelos mesmos cinco ou seis endereços. Treinadores que construíram reputação fora do circuito nacional não aparecem nessa equação. Os partenopei seguem sem técnico até o fechamento desse texto, e o foco parece ter mudado para a contratação de Massimiliano Allegri.
71%
dos técnicos da Serie A são italianos
Maior índice entre as cinco grandes ligas europeias
83%
dos técnicos da Premier League são estrangeiros
Menor índice de nacionais entre as cinco grandes
A estatística da última temporada sustenta a percepção sem precisar validar o exagero: 40% dos treinadores da Serie A têm entre 50 e 59 anos, 6,8 pontos acima da média do Tier 1. A faixa dos 40 a 49 representa apenas 33% da liga contra 39% no restante do top tier. Quando um cargo abre, a busca começa e termina dentro do mesmo circuito. Para a próxima época, as movimentações empurram uma lufada de ar fresco já que uma nova leva de treinadores abaixo dos 50 anos iniciarão a divisão de elite empregados: Alberto Aquilani (Sassuolo), Ignazio Abate (Torino) e Domenico Tedesco (Bologna).
Perfil dos treinadores
A faixa dos 50 é o endereço preferido da Serie A
<40
41-49
50-59
60+
Itália
9.5%
33.3%
40.5%
16.7%
Tier 1
10.2%
39.2%
33.7%
16.9%
Tier 2
15.3%
48.7%
28%
8%
Fonte: WikiData, Transfermarkt, FotMob — temporada 2025/26, excluídos interinos.
Este texto não tem interesse em ser categórico sobre a forma correta de jogar ou sugerir homogeneidade em cima de um esporte plural e em constante evolução – ainda que esses desenvolvimentos sempre resgatam premissas esquecidas de um passado distante. Para além disso, toda escola que parece nova é uma reciclagem dos últimos 120 anos. O estilo permissivo e criativo de Sacchi era uma releitura do que tinha aprendido assistindo o Ajax dos anos 1970; aquele Ajax de Rinus Michels e Stefan Kovacs aplicava uma variante da Hungria de 1953 treinada por Gustav Sebes; e Sebes desenvolveu uma derivação do que Jimmy Hogan havia ensinado aos vienenses no começo do século. O futebol é uma amálgama de linha contínua. Mudam os sotaques e os instrumentos.
Então que se desautorize o sensacionalismo dos dois lados. Não há futebol moderno ou antiquado. Há ciclos, reciclagens e sínteses. A Itália, agora, tem todo o material para o próximo resumo e nenhuma estrutura federativa que autorize a coordenação. E se todo o ecossistema está escorado na hesitação e a assinatura tática tem consequências diretas sobre quem joga, esse acaba sendo um filtro de escalação.
Recrutar tarde tem explicações que o debate italiano tende a fundir num argumento só. O estrangeiro de 26 anos com 300 partidas profissionais é um ativo de risco calculado; o italiano sub-19 é uma aposta que a folha do clube não comporta. O outro é que boa parte dos arquétipos descritos acima exige leitura de jogo e comportamento tático que raramente aparecem prontas em jogador recém-saído das categorias de base. As duas explicações podem ser verdadeiras ao mesmo tempo. O problema é que, juntas, produzem um sistema que se retroalimenta: a liga recruta tarde por conveniência financeira, os treinadores desenvolvem sistemas compatíveis com atletas maduros para garantir sobrevida no cargo, e o jovem fica sem espaço. Francesco Camarda, emprestado ao Lecce pelo Milan, tem um perfil mais completo que seus predecessores – mais vertical, pressionador, técnico –, mas o melhor jogador do Europeu Sub-17 e vice-artilheiro da competição pode ser rebaixado após atuar sete titularidades em 21 jogos e com média de 30 minutos por aparição.
A regra de inscrição de elencos não tem resolvido o problema. A Serie A exige que dos 25 jogadores registrados, pelo menos oito tenham sido formados em academias italianas, dos quais quatro no próprio clube. É uma das cotas mais detalhadas do Tier 1 em termos de estrutura formal. Na prática, a Itália é a liga com o menor percentual de minutos de jogadores formados localmente: 5%, contra 20% na La Liga e 6% na Premier League. A Espanha usa uma cota estruturalmente mais simples (restrição de passaportes extracomunitários, com máximo de três em campo por rodada) e produz quase quatro vezes mais minutos para jogadores locais. Os clubes italianos cumprem a regra no cadastro sazonal e escalam os estrangeiros no domingo.
Quanto custa um ponto na Europa?
A Itália acumula o 2º maior retorno de receita por ponto UEFA — mais eficiente que Alemanha e França, menos que Espanha. O custo por ponto é o menor do continente, mas os pontos estão concentrados em poucos clubes.
País
Pontos UEFA
Pontos/clube
Receita média €M/ano
Receita/clube €M
€ / ponto UEFA
Espanha
885
44,3
2.772
138,6
40,7
Itália
494
24,7
2.166
108,3
57,0
Alemanha
440
24,4
2.890
160,6
85,4
Inglaterra
691
34,6
5.153
257,7
96,9
França
210
10,5
1.711
85,5
105,9
Espanha40,7 €/ponto
Pontos UEFA885Pontos/clube44,3Receita €M/ano2.772Receita/clube138,6
Itália57,0 €/ponto
Pontos UEFA494Pontos/clube24,7Receita €M/ano2.166Receita/clube108,3
Alemanha85,4 €/ponto
Pontos UEFA440Pontos/clube24,4Receita €M/ano2.890Receita/clube160,6
Inglaterra96,9 €/ponto
Pontos UEFA691Pontos/clube34,6Receita €M/ano5.153Receita/clube257,7
França105,9 €/ponto
Pontos UEFA210Pontos/clube10,5Receita €M/ano1.711Receita/clube85,5
Pontuação UEFA agregada em 13 temporadas (2011/12–2023/24), somando a presença em cada fase eliminatória com pesos quadráticos (oitavas=1, quartas=4, semifinal=9, final=16) e tratamento uniforme entre Champions, Liga Europa e Conference. Receita é a média anual Deloitte. €/ponto UEFA é índice ilustrativo
Fonte: RSSSF, Deloitte Annual Review of Football Finance (2022 e 2025).
Um detalhe técnico que esses índices também não capturam talvez explique mais o empobrecimento da liga do que qualquer observação estilística. Nos últimos sete anos, o número médio de dribles bem-sucedidos por partida na Serie A caiu. Nem entre as dez principais ligas europeias está mais a Itália em metros percorridos por arrancadas — disputa que ninguém costuma fazer questão de vencer, mas que, perdida, chama a atenção. A redução do drible é, em si, um diagnóstico estético: o jovem que dribla precisa ser tolerado pelo treinador no momento em que o drible falha, e o treinador da Serie A, pressionado pela contabilidade, pela tabela e pelo retorno financeiro, tolera menos. O atacante de 27 anos recém-saído de Belgrado ou Copenhague entrega mais consistência e isso encerra a discussão antes mesmo de ela ser feita – ainda que, quando bem feito, gera o encanto que o futebol nasceu para fazer, como Alisson Santos, do Napoli, que mostra esse ímpeto em quase toda jogada que participa.
O Dossiê Baggio relatava que os treinamentos "devem ser mistos, físicos e técnicos, porque aqueles apenas físicos são totalmente desvinculados do contexto de jogo". Era uma frase contra a especialização precoce e contra a falsa oposição entre técnica e física, que continua sendo a doença diagnóstica do futebol europeu. A literatura científica do esporte é convergente: ambientes excessivamente estruturados reduzem a variabilidade de experiências e comprometem o repertório de tomada de decisão. Andrea Pirlo, no livro de memórias, escreveu uma frase que poderia abrir qualquer manual: "Penso, logo jogo. O futebol se joga com a cabeça. Os pés são apenas o instrumento". Pirlo foi descrito, durante metade da carreira, como lento. Luka Modric foi descrito como lento. Andrés Iniesta, Marco Verratti, Toni Kroos, Xavi — todos, em algum momento, foram considerados fisicamente atrasados. Todos venceram tudo. O sub-19 que Baggio queria proteger é o sub-23 de hoje que não tem tempo de jogo na Serie A.
A oposição entre técnica e física é falsa. O número de quilômetros percorridos diz pouco sobre quem entendeu o jogo antes do adversário. Um estudo de escaneamento visual mostrou que Xavi, em seu auge, fazia isso o campo quase 3x mais que um atleta médio da divisão inglesa de elite. A leitura de espaço responderia para a diferença entre correr 12 km com 70% de decisões corretas em campo e correr 10,5 km com 90%. Quem é mais físico, nesse caso, é uma pergunta com respostas ambíguas.
A França consegue proteger a seleção dos limites da Ligue 1 porque exporta seus melhores jogadores em escala massiva. A Inglaterra reformou a seleção quando a Premier deixou de jogar à inglesa sob influência de técnicos estrangeiros. A Espanha mantém uma coerência entre liga e seleção porque a sua identidade de jogo é bem-sucedida. A Itália não tem nenhuma dessas saídas. Exporta pouco, reforma pouco e depende muito do que a Serie A oferece.
Entre 2020 e 2025, a França registrou 2.293 expatriados; a Itália, 413. Essa distância não é só econômica. É estilística. Significa que a seleção italiana é mais prisioneira da sua liga doméstica do que qualquer outra grande seleção europeia. Se a Serie A joga menos com a bola, produz menos e demora mais a confiar em jovens, a Azzurra tende a reproduzir isso. O material humano chega de casa. E a casa, hoje, continua desconfiando da novidade.