Capítulo 05

A corrente

Em julho de 2021, Gareth Southgate levou a Inglaterra à final da Eurocopa com um time que nenhum inglês teria reconhecido 20 anos antes. Havia construção desde o goleiro, posse e transições controladas — e duas décadas de treinadores estrangeiros reformulando a Premier League por trás de cada passe. Arsène Wenger, José Mourinho, Rafael Benítez, Jürgen Klopp, Carlo Ancelotti, Mauricio Pochettino, Antonio Conte, Thomas Tuchel, Unai Emery e o próprio Guardiola: a liga deixou de jogar à inglesa. A seleção, alimentada quase integralmente por jogadores da Premier League, também deixou.

O estilo de jogo de uma seleção precisa ser o estilo do seu campeonato nacional? A resposta empírica é não. Mas é um não que se aplica a quase todo mundo menos à Itália — e o porquê dessa exceção é menos sobre a seleção do que sobre a liga.

A Inglaterra passou décadas jogando à inglesa — passes longos, segunda bola, força física — e a seleção jogava igual e perdia torneios desde 1966. A mudança não veio de nenhuma reforma federativa. Veio dos treinadores estrangeiros que assumiram, um após o outro, os principais clubes da Premier League.

O estilo da Espanha deriva da La Liga ainda jogando à espanhola em uma das centésimas variações do manual aberto na chegada de Johan Cryuff a Barcelona em 1988, com coletivismo, posse curta, falso nove e uma identidade que contaminou o Real Madrid em versões variadas e definiu a liga por imitação competitiva. A seleção que ganhou a Euro 2024 jogava algo um pouco diferente, com mais transição e dribles, e menos posses, mas continua sendo uma adaptação dentro do mesmo dialeto. La Roja é o produto de oito academias construídas à imagem da cantera barcelonista, todas falando o mesmo idioma tático ainda que com sotaques distintos.

A Alemanha quase perdeu o fio e tenta reconectá-lo. A Mannschaft de 2014 era o futebol da Bundesliga — vertical, ofensiva, com pressão alta. Depois vieram os vácuos de 2018 e 2022, coincidindo com a Bundesliga importando mais e formando menos. A Alemanha tem 94% dos convocados em clubes nacionais. Quando a liga muda, a seleção muda junto — para o bem e para o mal.

A França é o caso estruturalmente oposto a todos os outros. Os melhores jogadores franceses atuam majoritariamente em qualquer lugar exceto na Ligue 1: Kylian Mbappé foi para o Real Madrid, Antoine Griezmann passou a vida entre Madri e Barcelona, e Paul Pogba, N'Golo Kanté, Theo Hernandez, Raphael Varane construíram a carreira no exterior. A seleção francesa joga um estilo que não é o da Ligue 1, e não precisa ser: Didier Deschamps segue escalando um time construído em seis ligas diferentes. A Ligue 1 forma; o resto do continente refina. Por isso a França pode ter uma liga com receita estagnada e uma seleção que disputou a final da Copa de 2022 — o selecionado está protegido da liga porque os melhores franceses saem dela.

A Itália atual não tem nenhum desses três caminhos. Não tem treinadores estrangeiros reformulando a Serie A em massa, como a Inglaterra. Não tem uma identidade de jogo bem-sucedida para replicar, como a Espanha. E não exporta seus jogadores de ponta para outras grandes ligas em volume suficiente para reconfigurar a seleção a partir de fora, como a França.

O resultado aparece nos números. Dos 23 convocados para o playoff da Bósnia em março de 2026, 20 jogavam na Serie A — 87% do elenco. Não é o maior percentual do Tier 1; a Alemanha passa de 94%. A diferença está em outro plano: a Bundesliga, quando ditou o jogo da Mannschaft, era uma liga com estilo definido e exportável. A Serie A, quando dita o jogo da Azzurra, é o catálogo de hesitações descrito no capítulo anterior. A dependência é parecida; o repertório que ela impõe à seleção, não.

A história mostra que as sínteses bem-sucedidas são feitas por quem aceita a tradição local antes de adicionar a importada. Sacchi importou a marcação por zona holandesa e juntou com a disciplina coletiva italiana. Cruyff, no Barça, pegou o futebol total que conhecia e combinou com o talento individual catalão. Guardiola aglutinou os conceitos de Cruyff com a obsessão metodológica. Toda escola que parece nova é uma reciclagem dos últimos 120 anos — o estilo permissivo e criativo de Sacchi era uma releitura do que tinha aprendido assistindo o Ajax dos anos 1970; aquele Ajax de Rinus Michels e Stefan Kovacs aplicava uma variante da Hungria de 1953 treinada por Gustav Sebes; Sebes desenvolveu uma derivação do que Jimmy Hogan havia ensinado aos vienenses no começo do século. O futebol é uma linha contínua. Mudam os sotaques e os instrumentos.

Exportações, em números
#1
Brasil
Maior volume global de jogadores expatriados no relatório do CIES.
#2
França
A Ligue 1 forma; o restante do continente refina o topo da geração.
#3
Argentina
Exportadora estrutural de talento para o mercado europeu.
1.000–1.500
Inglaterra, Espanha, Alemanha e Colômbia ficam nessa faixa de expatriados.
500–1.000
Nigéria, Sérvia, Croácia, Holanda, Uruguai, Gana, Bélgica e Senegal ficam nessa faixa.
400–500
Itália
Itália divide esse setor com Rússia, Estados Unidos e Japão
Fonte: CIES Football Observatory Monthly Report 100 (2025)

Escrever esse texto depois de uma perna de semifinal europeia que termina em 5x4 é extremamente estranho. Porque PSG e Bayern mostraram disposição para assumir riscos às últimas consequências para defender os modos de jogo – custando frequentemente seus laterais, entre os melhores do mundo, contra os melhores pontas do mundo. Foi um jogo divertido, atraente, de invejar a preparação física e, obviamente, de mostrar o que o dinheiro faz quando se investe em jogadores excepcionais. Os já citados Zaïre-Emery, Mayulu e Musiala participaram do jogo, assim como Nuno Mendes, João Neves, Désiré Doué, Aleksandar Pavlovic e Bradley Barcola. Todos com 23 anos ou menos se comprometendo para um futebol que diverte, envolve e que, querendo ou não, contribuiu para esse esporte mercantil que temos: a grana rege e consolida estruturas.

Os vice-campeões mundiais sub-20 de 2023, nascidos em 2003 e 2004, têm hoje 21 e 22 anos: é a leva que chega primeiro à janela decisiva. Atrás dela vêm os campeões europeus sub-19 de 2023 e os sub-17 de 2024, mais novos, ainda distantes do veredito. Em 2027, quando a geração de 2003-04 estiver na faixa dos 23 a 25 anos, a questão vai ser respondida de forma definitiva: a Serie A vai mudar o que escala, ou a geração mais prometedora do futebol italiano em quinze anos vai terminar repetindo o caminho dos melhores franceses — formada em casa, consolidada longe dela?