Aquela reunião entre Lega e CONI em abril teve um debate, entre outros itens comentados, sobre uma proposta de mudança no formato do Campeonato Primavera para eliminar tabelas, promoções e rebaixamentos e concentrar o foco em desenvolvimento individual, não em resultados. Era um reconhecimento, ao mesmo tempo tardio e preciso, de que parte do problema estava na cultura de formação dos próprios clubes, e que revisita um dos capítulos do Dossiê.
Quando a base competia para vencer, os treinadores escolhiam os mais maduros, os mais físicos, os mais prontos. Os tecnicamente brilhantes mas fisicamente atrasados ficavam de fora. E eram exatamente os tecnicamente brilhantes que a seleção principal precisaria ter recebido.
Para que a janela de 2027 se abra, há problemas que não têm solução tática. São financeiros, políticos e estruturais ao mesmo tempo — o pior tipo.
O recrutamento tardio precisa parar de ser tratado como característica da liga. Recrutar um ano mais tarde que Espanha e França não é estilo; é custo de formação transferido para o mercado. As séries B e C precisam de saneamento antes que o andar de baixo imploda: 87% de custo salarial sobre receita na B e 85% dos clubes da C no vermelho não é anomalia de temporada ruim; é o estado permanente. Os clubes precisam reter talento tempo suficiente para que ele vire algo. O modelo de girar o estoque jovem para equilibrar o balanço funciona para o clube e funciona contra a seleção.
A liga poderia se beneficiar de alguma identidade tática transversal, distinguindo dois planos que o debate costuma embolar. Não se trata de homogeneizar o pensamento dos treinadores de elite: a pluralidade dos oito arquétipos é uma riqueza. Alinhar a formação de base ao tipo de jogo que o jovem vai encontrar no profissional, para que o sub-19 não chegue à Serie A como estrangeiro do próprio sistema, é o modelo de coerência entre a base e o palco, não uniformidade de ideias.
Há ainda a questão federativa, a mais difícil por ser a menos visível. Vôlei (FIPAV) e ciclismo (FCI) operam estruturas de monitoramento e desenvolvimento contínuo, com orçamento definido e responsabilidade clara. O futebol italiano tem Coverciano, tem teses de formação bem escritas, tem um diagnóstico impecável arquivado em 900 páginas. O que ainda não tem é alguém cujo emprego dependa de que o diagnóstico seja executado.
A eleição da FIGC em 22 de junho de 2026 é o próximo teste óbvio. Há dois candidatos formais: Giancarlo Abete, que presidiu a federação entre 2007 e 2014 e lidera atualmente a Lega Nazionale Dilettanti, e Giovanni Malagò, ex-presidente do CONI, cuja candidatura foi subscrita pela Lega Serie A, pela Associação dos Treinadores e pela Associação dos Jogadores¹⁶ .
Abete é o homem que recebeu o Dossiê Baggio em 2011 e o arquivou. Seu programa atual, no entanto, coloca como prioridade absoluta o desenvolvimento de formadores para a faixa dos 5 a 12 anos e propõe reformar o Club Italia como entidade com gestão autônoma e orçamento definido¹⁷. A questão que o programa não responde é por que o diagnóstico de 2011 e o de 2026 chegam às mesmas conclusões — com 15 anos de intervalo e nenhuma execução no meio.
Malagò chega com o apoio das instituições cujos interesses históricos tornaram a reforma difícil: a Lega Serie A nunca quis regulamentação obrigatória de minutagem jovem; os treinadores nunca quiseram cotas que limitassem suas escolhas de escalação. O programa de Malagò não propõe cotas¹⁸: propõe coerência de fileira sem obrigatoriedade. Soa razoável. Pode significar, na prática, mais do mesmo.
Em algum lugar, Roberto Baggio está relendo o documento.
O argumento final é simples, embora desconfortável. A Itália não precisa mais provar que sabe formar. Os dados indicam que voltou a saber apesar de não ter aplicado qualquer reforma em larga escala. O que precisa provar agora é que consegue organizar um ecossistema profissional compatível com essa formação: um campeonato que compra menos urgência, suporta mais risco, segura mais tempo o talento e oferece um palco menos hostil ao jogador de 19 anos.
Já não se trata de uma derrota em Milão, de um chute em Palermo ou de um pênalti em Zenica. Trata-se de decidir que tipo de liga a Serie A quer ser: uma liga que transforma formação em carreira, ou uma liga que transforma formação em contabilidade, com o sucesso ou o fracasso estampado nos rostos incrédulos de quem participa de eliminações em repescagens.