Capítulo 02

O estreito funil da nova geração

Em julho de 2023, a seleção italiana sub-19 venceu o Campeonato Europeu em Malta, batendo Portugal na final. Cinco semanas antes, no degrau mais perto do futebol adulto, a sub-20 havia chegado à final do Mundial da categoria, perdida por 1 a 0 para o Uruguai – geração que hoje tem 21 e 22 anos. No ano seguinte, a sub-17 venceu o Europeu no Chipre contra os mesmos portugueses, com dois gols do milanista Francesco Camarda. Também em 2024, a UEFA entregou o Troféu Maurice Burlaz à Itália pela primeira vez na história, dado à federação com os melhores resultados de base do continente nas duas temporadas anteriores. E ainda teve mais um título na conta, outro do sub-17, na primeira semana de junho de 2026, há pouco, derrotando a Bélgica no Europeu na Estônia.

Dossiê Baggio
  • Projeto previa 100 distritos com três instrutores federais cada, observação contínua de 50 mil partidas/ano e banco de dados multimídia centralizado na FIGC
  • Funcionaria como ponte para o problema de transição entre as séries
  • Teve um piloto instalado em Pisa e Pontedera com resultados positivos, mas não avançou
  • Versão Abete: seguimento era responsabilidade do Setor Técnico, que não o deu; projeto foi parcialmente absorvido na gestão Tavecchio (2014-17)
  • Versão Petrone: houve resistência da LND, da classe dos treinadores e de procuradores

Alguém deveria ter feito, nesse momento, a pergunta que os dados tornam inevitável: onde esses jogadores vão atuar quando tiverem 21, 22 anos? É a mesma pergunta que Roberto Baggio tentou responder quando formulou um plano de 900 páginas e apresentou o projeto à FIGC em 2011, quando presidia o setor técnico da federação.

Entre 50 ligas analisadas pelo CIES na temporada 2024-25, a Serie A ocupa a 49ª posição em percentual de minutos disputados por atletas sub-21 — menos de 2% do total⁵. A Premier League está em 45ª; a Bundesliga, em 40ª; e La Liga, em 37ª. A Ligue 1 é a 17ª entre 50 ligas e entrega quase 8% — o melhor índice do Tier 1, embora reflita dinâmicas específicas do modelo de exportação francês mais do que uma abertura estrutural da liga a jovens. No Tier 2, dois países figuram entre os 15 melhores desenvolvedores do mundo: a Dinamarca em 3º e a Holanda em 11º.

De cada cem minutos jogados na Serie A em 2024-25, menos de dois foram tocados por alguém com menos de 21 anos.

Itália contra seus pares: minutagem sub-21
nas 50 ligas de referência
Percentual de minutos totais disputados por jogadores com menos de 21 anos. Posição do país entre parênteses. Temporada 2024-25.
Fonte: CIES Football Observatory Weekly Post 522 (2025)

A Itália não está no fundo do ranking porque não sabe formar: está porque forma e não usa. Para entender o que esse dado esconde, é preciso cruzar o valor de mercado gerado pelas academias de cada país com a mediana de uso de sub-21 nas respectivas ligas. Os dez clubes italianos que figuram entre os cem maiores geradores de academy value do mundo (Inter, Milan, Atalanta, Fiorentina, Torino, Roma, Juventus, Genoa, Parma e Napoli, nesta ordem) somam €561 milhões em jogadores formados internamente, o quarto maior volume nacional. Só que a mediana de uso desses jovens é baixa: 4,3%. A Itália não está sozinha nesse canto. A Espanha gera quase quatro vezes mais valor de base e usa ainda menos: 3,7%. São os dois grandes exportadores que valorizam o jovem sem consolidá-lo em casa. O contraste vem de cima: Holanda, Bélgica e Dinamarca geram bem menos valor e escalam de duas a três vezes mais sub-21; França e Alemanha, com volume de valor parecido ao italiano, também usam bastante mais. A Itália produz mais do que usa. Muito mais — mas não é a única.

A Itália produz valor de base, mas não escala seus jovens
Tier 1Tier 2
Academy value = valor de mercado de jogadores formados internamente pelos clubes do top 100 global. Minutagem mediana por país calculada sobre os clubes presentes nesse top 100.
Fonte: CIES Football Observatory Weekly Posts 531 e 541 (2026)

Vale notar que o valor da base mede valorização de mercado, não trajetória de desenvolvimento completo. Parte desses €561 milhões vem de jogadores exportados antes de atingir o pico. O indicador não distingue quem foi vendido cedo de quem se consolidou em casa. Isso volta a importar mais adiante, quando o assunto for o dinheiro.

O CIES também usa um indicador chamado Level Method, que pondera os minutos jogados pela qualidade da competição e calcula a experiência acumulada em um período. Analisando 2025, a Serie A somou 41 mil pontos de experiência sub-21, acima de Dinamarca (36 mil) e Holanda (30 mil), dois dos maiores desenvolvedores do mundo em minutagem bruta. Os poucos jovens que entram em campo na Serie A jogam num palco de alto nível técnico. Mas exposição de qualidade e ritmo competitivo são coisas distintas. O jogador que disputa 90 minutos de alta intensidade a cada três meses acumula referências pontuais. A Dinamarca pode dar mais partidas; a Itália pode dar partidas melhores. A questão é qual dos dois forma um titular.

Essa contradição tem uma explicação histórica que deveria incomodar mais do que incomoda. Não começou em 2017, não foi causado pela ausência nos mundiais e não é resultado de uma lei. Estudos no banco de dados do CIES mostram que a Itália tinha a menor mediana de minutos de jogadores formados localmente entre as cinco grandes já no início da década de 2010: 8%, contra 21% da França, 17% da Alemanha e 12% da Inglaterra. O baixo aproveitamento de jovens é uma característica estrutural da Serie A com pelo menos 15 anos de vigência. O que mudou nos últimos cinco é que a base italiana se mostrou competitiva o suficiente para fazer o contraste ser absurdo.

O gráfico da evolução do ranking UEFA das seleções italianas de base — lido de baixo para cima, porque posições menores indicam melhor desempenho — é uma curva que conta uma história por si só. Entre 2012 e 2018, a Itália caiu para fora do top 15 no sub-17 e sub-19. Foram seis anos com baixo nível de competitividade internacional entre seus pares para as gerações que nasceram entre 1995 e 2001 – jogadores que hoje têm entre 24 e 30 anos. Vale uma nota: é menos sobre exemplos individuais de sucesso, como Sandro Tonali, Manuel Locatelli, Nicolò Barella, mas o universo. O vão é também uma explicação de por que a seleção italiana dos últimos ciclos parecia velha para a sua própria identidade, apoiada na geração formada no pior momento do sistema de desenvolvimento, e formada justamente no período em que o Rinnovare Il Futuro deveria ter operado.

Ranking jovem da UEFA
Ranking Sub-17Ranking Sub-19
AnoRanks◄ melhor · pior ►
2011
713
2012
138
2013
1516
2014
179
2015
1918
2016
2120
2017
1822
2018
1619
2019
1214
2020
911
2021
78
2022
56
2023
44
2024
33
2025
32
2026
1
122
Ranking UEFA calculado sobre resultados acumulados das seleções de base nas competições continentais. Posição 1 = melhor desempenho. U19 da temporada 2025-26 ainda sem dado.
Fonte: FIGC Area Football Analysis

A recuperação começou em 2019-20 e foi consistente. A sub-17 chegou ao primeiro lugar em 2025-26; a sub-19, ao segundo em 2024-25. São gerações nascidas entre 2005 e 2008, cujos jogadores ainda não chegaram ao pico profissional – as turmas representadas por Filippo Missori, Pio Esposito, Michael Kayode, Niccolò Pisilli e, dos mais jovens, Massimo Pessina, Mattia Liberali e Francesco Camarda. (Também era possível incluir Luis Hasa nessa lista, mas ele escolheu atuar pela Albânia.)

Uma forma mais honesta de ler esses troféus é descer a escada de idade até o último degrau antes do profissional. O sub-17 italiano é o melhor da Europa, o sub-19 é o segundo, o sub-20 foi vice-campeão mundial. O sub-21, a antessala direta da seleção principal e primeira categoria que cobra minutos de futebol adulto, caiu na fase de grupos do Europeu de 2023 e parou nas quartas em 2025. A qualidade decai à medida que a idade sobe, e o tempo de jogo profissional acumulado é menos exigido aos integrantes das seleções mais jovens. A curva por faixa etária desenha a evidência do capítulo. O efeito pleno da geração formada na recuperação, com o intervalo habitual de sete a oito anos entre a base e a consolidação profissional, só se mede a partir de 2027. E vai depender menos de quantos títulos a base ganhou do que de quantos minutos o profissional conceder.

Vale a cautela sobre os próprios méritos. A distância entre uma medalha sub-17 e uma carreira profissional é enorme, e os dados italianos medem isso. Dos 163 jogadores convocados para as seleções sub-17 e sub-19 entre 2012 e 2018, menos de um terço chegou a um nível relevante para a seleção principal; o restante parou nas divisões locais.

Trajetórias
Quem chegou ao mais alto nível?
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Categoria baseada em premissas: Mundial = participou ativamente de competições de alto nível por mais de três anos e jogou na seleção principal; Continental = mais de um ano e seleção principal; Local A/B/C = carreiras consolidadas nas divisões profissionais nacionais.
Fonte: Transfermarkt

Onde esses jovens jogam enquanto esperam?

A transição do jovem formado ao profissional é o nó. Dos convocados da seleção sub-20 para o Mundial de 2023, apenas 22% dos minutos profissionais foram jogados na Serie A. A seleção francesa do mesmo torneio teve 43% dos atletas jogando na Ligue 1. Na Itália, 35% dos minutos estavam na Serie B e 28% na Serie C.

Os convocados italianos jogam mais nas séries B e C que seus pares
1ª Divisão2ª Divisão3ª DivisãoOutros
Percentual de minutos profissionais dos convocados para cada competição, distribuídos por nível de divisão.
Fonte: FIGC — Analisi Impiego Calciatori ClubItalia U17-U19-U20 (2017-2024)

A Itália não tem o modelo espanhol de filiais. O Barcelona B pode chegar à Segunda División. Em Portugal, o Benfica B jogou na segunda divisão por anos. Na Alemanha, times B operam em campeonatos regionais com acesso à terceira divisão nacional. A Itália começou a abrir esse espaço em 2018 com a Juventus Next Gen, e expandiu o modelo de forma tímida cinco anos depois com Atalanta U23 e Milan Futuro. Sem esse degrau intermediário, o jovem italiano sub-17 vai para a Serie C emprestado, joga duas temporadas, volta. Ou, quando muito, consegue uma vaga no exterior. O jogo entre os Borussias Monchengladbach e Dortmund na primeira semana de maio de 2026 teve três italianos sub-21 entre os titulares (Fabio Chiarodia, Samuele Inacio e Luca Reggiani; mais o reserva Filippo Mané). Impensável para a Serie A.

“Gasperini continua insatisfeito. No verão, a diretoria lhe ofereceu [Rasmus] Hojlund, depois [Jonathan] Rowe. E em janeiro, [Jeremie] Boga: ele rejeitou todos, incluindo Robinio Vaz, que acabou sendo contratado, mas que, para ele, ‘deveria passar dois anos na Serie B'”

– escreveu o jornal La Repubblica, na segunda quinzena de abril de 26, dia em que Rowe e Vaz se enfrentaram em Bologna x Roma. Vaz, 19 anos, jogava pela Ligue 1 desde os 17 e era uma importante peça para a rotação do Marseille antes de se transferir para a Trigoria.

A seleção profissional é atualmente, ao mesmo tempo, jovem e tardia. A idade média dos convocados é de 26 anos, a mais baixa do Tier 1 no recorte 2024 da CIES⁹, mas a composição dessa juventude é peculiar: apenas 2% dos minutos vêm de sub-21; 56% vêm da faixa de 22 a 25 anos. A Azzurra não é ancorada em adolescentes ou jovens adultos prodigiosos; é um time sustentado por jogadores tardios, como Andrea Cambiaso, Davide Frattesi, Giacomo Raspadori, Moise Kean e Gianluca Scamacca.

A Gazzetta dello Sport escreveu recentemente, em abril, os melhores jovens disponíveis na Serie B para a janela seguinte e anotou que, no verão anterior, apenas dois jogadores haviam sido adquiridos a título oneroso por clubes da Serie A diretamente da segundona. Dois. Em todo o mercado de verão. O resto chegou de retorno de empréstimos ou como jogadores livres de contrato. É um dado mais anedótico do que estrutural, mas bastante interessante para exemplificar como a estrutura do mercado interno transformou a Serie B numa antecâmara informal, não num degrau profissional planejado.

Também, indo além da anedota, diz-se dentro e fora do circuito italiano que falta coragem ao treinador da Serie A para escalar os moleques como os alemães, os espanhóis e os franceses fazem. A descrição é parcialmente verdadeira como sintoma e quase inteiramente falsa como diagnóstico, pois vale separar a causa imediata do mecanismo profundo. O treinador que escala o sub-19 e perde meia dúzia de partidas é demitido não porque a torcida ou a diretoria exija algum tipo de bravura, mas porque a folha consome quase 70% da receita da liga e o orçamento não permite erro. A coragem que falta é o financiamento. Por isso os dados das categorias de base não podem ser lidos como consolo, mas como cobrança.

Recrutamento
Como tem sido o recrutamento da Serie A desde 2006?
Clubeaté 1718-2122-2526-2930-3334-3738+
AC Milan0.0%13.6%22.7%36.4%18.2%4.5%4.5%
ACF Fiorentina0.0%15.4%38.5%30.8%7.7%3.9%3.9%
AS Roma0.0%19.2%26.9%38.5%15.4%0.0%0.0%
Atalanta BC4.2%0.0%54.2%20.8%16.7%4.2%0.0%
Bologna FC 19090.0%3.9%30.8%42.3%11.5%11.5%0.0%
Cagliari Calcio0.0%20.0%40.0%20.0%16.0%4.0%0.0%
Como 19070.0%27.3%27.3%13.6%31.8%0.0%0.0%
Genoa CFC0.0%16.7%33.3%25.0%20.8%4.2%0.0%
Hellas Verona0.0%11.1%25.9%51.8%11.1%0.0%0.0%
Inter Milan0.0%4.5%22.7%40.9%18.2%13.6%0.0%
Juventus FC0.0%8.3%29.2%50.0%12.5%0.0%0.0%
Parma Calcio 19130.0%12.5%54.2%20.8%8.3%4.2%0.0%
Pisa Sporting Club0.0%17.9%32.1%35.7%3.6%7.1%3.6%
SS Lazio0.0%3.9%30.8%26.9%30.8%3.9%3.9%
SSC Napoli0.0%4.0%24.0%36.0%28.0%8.0%0.0%
Torino FC0.0%12.0%40.0%20.0%24.0%4.0%0.0%
Udinese Calcio3.7%14.8%25.9%37.0%11.1%3.7%3.7%
US Cremonese0.0%3.9%26.9%46.2%11.5%7.7%3.9%
US Lecce4.0%8.0%52.0%32.0%4.0%0.0%0.0%
US Sassuolo0.0%4.3%43.5%43.5%4.3%4.3%0.0%
Liga0.6%11.1%34.0%33.4%15.3%4.4%1.2%
Idade do jogador na referida temporada com mínimo de uma partida realizada.
Fonte: Transfermarkt
Visão anual simplificada
Tendência histórica da Serie A no recrutamento por idade
Média das proporções etárias de todos os clubes da Serie A por temporada.
Fonte: Transfermarkt

⁵ CIES Football Observatory Weekly Post 522 (2025).

⁶ CIES Football Observatory Weekly Posts 531 e 541 (2026).

⁷ FIGC Area Football Analysis.

⁸ FIGC — Analisi Impiego Calciatori ClubItalia U17-U19-U20 (2017-2024).

⁹ CIES Football Observatory Weekly Post 483 (2024).