A Itália se despediu da Copa do Mundo cercada por um ruído que San Siro não reconhecia. Eram quase 20 anos desde o último confronto de repescagem europeu, quando a Azzurra bateu a Rússia em Nápoles e carimbou o passaporte à França-98. Dessa vez, Gianluigi Buffon chorou diante das câmeras, Daniele De Rossi reagiu com indignação ao assistente técnico que pediu para que aquecesse quando a equipe precisava de gols e ao seu lado estava Lorenzo Insigne, voando pelo Napoli, sentado, aguardando, e a Suécia saiu de Milão com a vaga.
A cena voltou em março de 2022, em Palermo. Bastou um chute da Macedônia do Norte no fim para derrubar a tetracampeã do mundo que empilhou chances perdidas nos pés de Domenico Berardi. E aí veio o terceiro ato dessa tragédia, com o mesmo roteiro de sempre para a noite de 31 de março de 2026: Moise Kean abriu o placar, Alessandro Bastoni foi expulso ainda no primeiro tempo, a Bósnia e Herzegovina empatou e a Itália caiu nos pênaltis. Em menos de uma década, o país saiu de um anomalia traumática para uma recorrência. Nenhuma outra seleção com o histórico competitivo da Itália chegou perto de repetir essa sequência.
O drama não cabe mais numa noite de playoff. Os sintomas existem há anos, independentemente do resultado. Fosse com Jorginho convertendo o pênalti contra a Suíça na penúltima rodada das eliminatórias para 2022, Kean finalizando corretamente a boa chance em contra-ataque criada no segundo tempo em Zenica ou a FIGC usando corretamente o material preparado pelo setor técnico da Federação como resposta à eliminação na fase de grupos da Copa do Mundo de 2010. Nem os placares hipotéticos rumo ao Mundial, nem a realidade de uma Itália campeã da Eurocopa de 2021, encobririam o que está à mostra. A seleção é a face televisionada do problema e foi a fatura de uma conta construída ao longo de duas décadas, tijolo por tijolo, contrato por contrato, decisão por decisão, no interior de uma liga que havia parado de se perguntar o que estava fazendo com os seus próprios jogadores.
Pouco mais de dois meses depois da noite de Zenica, os meninos do sub-17 levantaram o troféu de campeões da Europa. Mesma federação, mesma primavera: os adultos não passaram pela Bósnia, a molecada bateu o continente inteiro. A Itália de 2026 voltou a produzir jogador como há quinze anos não produzia. O incômodo está no que vem depois: a Serie A é a 49ª entre 50 ligas do mundo em minutos cedidos a quem tem menos de 21 anos¹. Alguém já havia posto o problema em 900 páginas de papel. O documento foi para uma gaveta.